Em apresentação à ABBC, consultoria destaca que exigências passam a integrar riscos ESG aos resultados financeiros e ampliam rigor regulatório no Brasil

A adoção das normas internacionais de reporte de sustentabilidade IFRS S1 e S2 representa uma mudança estrutural na forma como empresas divulgam informações ESG, ao incorporar de forma direta os impactos financeiros desses riscos e oportunidades. A avaliação foi feita por Samir Sayed, sócio-diretor da KPMG, durante apresentação promovida pela ABBC.
Segundo o especialista, o principal avanço das normas emitidas pelo International Sustainability Standards Board, ligado à IFRS Foundation, é a mudança de foco: em vez de relatar apenas impactos ambientais e sociais das empresas, o novo modelo exige a divulgação de como fatores de sustentabilidade afetam o desempenho financeiro, o fluxo de caixa e o valor das companhias.
“O investidor não quer apenas saber como a empresa impacta o meio ambiente, mas como o clima, a regulação ou a cadeia de valor impactam financeiramente o negócio”, afirmou Sayed, destacando que essa abordagem reduz assimetrias de informação e melhora a tomada de decisão pelo investidor.
A nova estrutura também padroniza o reporte global, em resposta à fragmentação atual de frameworks e relatórios. A proposta do ISSB é criar uma “linguagem universal” de sustentabilidade, nos moldes do que ocorreu com as normas contábeis internacionais ao longo das últimas décadas.
No Brasil, a implementação já começou a ganhar força regulatória. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornou obrigatória a divulgação para companhias abertas a partir de 2026, com exigência de asseguração razoável — reduzindo o risco de auditoria a um nível aceitavelmente baixo. Já o Banco Central do Brasil também incorporou as diretrizes para instituições financeiras, ampliando o alcance das regras.
Outro ponto relevante destacado por Sayed é a transformação do relatório de sustentabilidade em um “relatório financeiro de sustentabilidade”, que passa a incluir efeitos monetários atuais e projetados dos riscos ESG. Isso envolve desde impactos climáticos na carteira de crédito até riscos de cibersegurança e mudanças regulatórias.
A adoção, no entanto, traz desafios relevantes. Entre eles estão custos iniciais, necessidade de novos sistemas, integração de dados, maior envolvimento da alta administração e a construção de metodologias para mensurar impactos financeiros — considerado um dos pontos mais complexos pelas empresas.
Além disso, o novo modelo reduz a discricionariedade dos relatórios, tradicionalmente vistos como peças de comunicação, e exige maior consistência, comparabilidade e transparência, reforçadas pela auditoria obrigatória.
Para o especialista, apesar das dificuldades, a tendência é de consolidação global das normas e maior relevância estratégica do tema dentro das organizações. “Sustentabilidade deixa de ser apenas narrativa e passa a ser parte central da análise financeira das empresas”, concluiu.


