Encontro em São Paulo reuniu profissionais do setor jurídico para apresentar soluções práticas de inteligência artificial voltadas à eficiência jurídica e ao combate à litigância predatória

A ABBC (Associação Brasileira de Bancos) promoveu nesta quarta-feira, 17 de junho, no JusBrasil, em São Paulo, o evento “Aplicação Prática de IA no Jurídico”, reunindo cerca de 60 profissionais do setor jurídico para discutir como a inteligência artificial vem transformando rotinas, ampliando eficiência e apoiando a resposta a um dos maiores desafios atuais do sistema de Justiça: a litigância predatória. O evento foi realizado em parceria com a JusBrasil Soluções e o escritório jurídico Pessoa & Pessoa.
O tema ganhou destaque diante de um cenário de forte pressão sobre o Judiciário brasileiro. Segundo dados do CNJ, o país encerrou 2023 com 83,8 milhões de processos pendentes, enquanto ações abusivas, repetitivas e muitas vezes ajuizadas sem conhecimento dos próprios autores têm elevado custos, aumentado a insegurança jurídica e gerado impacto direto sobre setores como o financeiro, o de saúde, o varejo e o transporte aéreo.
Na abertura do evento, o CEO da ABBC, Leandro Vilain, destacou que a litigância predatória representa um problema estrutural para o país e defendeu o uso de tecnologia como parte da solução.
“A litigância predatória é uma doença silenciosa que compromete a segurança jurídica e drena recursos do setor produtivo. A IA não é apenas uma ferramenta de eficiência, é também uma aliada estratégica para identificar padrões de abuso, automatizar triagens e dar inteligência em escala”, afirmou Vilain.
O diretor Jurídico e Legislativo da ABBC, Felipe Natale, também ressaltou a importância de iniciativas que aproximem inovação e prática jurídica, especialmente em um momento em que o setor busca soluções capazes de mitigar riscos, reduzir custos e aumentar a assertividade na análise de processos.
“Em breve, anunciaremos um projeto de IA em parceria com associações do setor bancário e entidades dos setores de aviação, construção, mercado imobiliário, seguros e telecomunicações para auxiliar na identificação de indícios de litigância predatória”, adiantou Natale.
Embora as soluções apresentadas tenham aplicações distintas, os cases demonstraram como a inteligência artificial pode contribuir para enfrentar desafios estruturais do sistema de Justiça, incluindo a litigância predatória. Ao automatizar tarefas repetitivas, ampliar a capacidade de análise de grandes volumes de informações e identificar padrões com mais rapidez e precisão, a tecnologia fortalece a capacidade de resposta das áreas jurídicas e apoia decisões mais qualificadas em todo o ciclo de gestão de processos.

Cases apresentados
OMNI
No primeiro case apresentado, Alessandra Caribé, Superintendente Jurídico da Omni, mostrou a solução “Advogada Virtual”, desenvolvida para automatizar a esteira judicial de busca e apreensão de garantias. A solução é uma plataforma agentica que utiliza IA para distribuir, impulsionar os andamentos de forma inteligente e encerrar os processos.
Segundo a executiva, desde a implementação da solução, o Omni Banco registrou eficiência operacional e tem perseguido aumentar e antecipar a recuperação do crédito. A participação do time tem sido essencial em todo o processo, que tem o dever de verificação e responsabilidade em toda a esteira.
BNDES
No segundo case, o BNDES apresentou a Jud-e, assistente de inteligência artificial criada para apoiar a análise de processos judiciais e otimizar a due diligence jurídica realizada de forma manual para quase 30 mil clientes. A solução foi desenvolvida para consultar informações em mais de 80 tribunais, reduzir custos e prazos, ampliar o escopo das análises e padronizar procedimentos, sem abrir mão da supervisão humana nas decisões críticas.
Baseada em uma arquitetura de múltiplos agentes de IA, a plataforma automatiza etapas mecânicas do fluxo, preservando o modelo human-in-the-loop, com validação por analistas em cada fase. Segundo o BNDES, a Jud-e pode reduzir em até 95% o esforço humano, encurtar análises de dias para menos de uma hora e ampliar a identificação de riscos relevantes, com foco em transparência, auditabilidade e segurança da informação
“A tecnologia nos permite ganhar escala com mais precisão, apoiar decisões mais consistentes e reduzir o esforço manual em tarefas repetitivas, deixando o jurídico mais estratégico”, destacaram Allan Strougo, Cientista de Dados do BNDES, e Leonardo Nunes, Advogado e Coordenador de Serviço do BNDES, durante a apresentação.
Pessoa & Pessoa
O Diretor Executivo de Operações do escritório de advocacia Pessoa & Pessoa, Ricardo Villas-Bôas, apresentou a jornada de desenvolvimento tecnológico do escritório, com foco no uso de IA para apoiar rotinas jurídicas e acelerar processos de análise. O case reforçou a importância de uma implantação estruturada, com adoção gradual e alinhada à realidade operacional da equipe.
“Hoje, para vocês, o nosso foco é o cadastro e a transferência de informação. A partir disso, temos desenvolvido soluções tecnológicas em duas frentes principais: uma voltada à inteligência de dados, estruturando um data lake e dashboards para apoiar a tomada de decisão, e outra voltada à eficiência e precisão, com automação de fluxos e redução de trabalhos repetitivos, sempre com checagem e uso de inteligência artificial”, disse Villas-Bôas.
JusBrasil Soluções
No encerramento das apresentações, o CEO do JusBrasil Soluções, Pedro Moreno, destacou o reposicionamento do JusIA como infraestrutura do trabalho jurídico — e não apenas como ferramenta acessória. A solução, lançada há um ano, já é utilizada por 300 mil advogados por mês e, desde o início de 2026, passou a integrar todos os planos da plataforma, inclusive com experimentação gratuita para não assinantes.
Segundo dados apresentados pela empresa, 76% dos profissionais do Direito já usam IA generativa ao menos uma vez por semana, principalmente para elaboração de peças (76%), pesquisa jurídica (59%), redação de pareceres (58%) e análise de contratos (56%). O JusIA conecta jurisprudência, doutrina e legislação em um único fluxo, além de sugerir próximos passos a partir do acompanhamento processual em tempo real.
“A nossa IA jurídica deixa de ser apenas um produto e passa a ser uma camada de inteligência que combina os melhores modelos do mundo com a maior base jurídica do Brasil para entregar mais precisão, mais automação e muito menos risco para o mercado”, declarou Moreno.
Workshops
A segunda parte do encontro foi dedicada ao “Workshop Prático e Desafio IA”, que levou os participantes a experimentar, na prática, as soluções apresentadas durante a manhã. Divididos em grupos, os profissionais receberam casos propostos pelos organizadores e tiveram o desafio de utilizar ferramentas de inteligência artificial para construir análises, propor soluções e desenvolver estratégias para os problemas apresentados.

No encerramento, representantes de cada equipe compartilharam os caminhos adotados durante a atividade, os principais desafios encontrados e os aprendizados obtidos ao longo do processo. Em seguida, os grupos apresentaram suas propostas ao público, encerrando o evento com uma demonstração concreta de como a inteligência artificial já vem transformando a atuação jurídica e ampliando as possibilidades de inovação no setor.


