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Risco climático, geopolítica e regulação redesenham o crédito e a estratégia no setor financeiro

Em apresentação à Comissão ESG, o especialista em finanças e sustentabilidade, Fábio Guido, diz que ambiente atual exige leitura integrada de risco por parte das instituições financeiras

Eventos climáticos extremos já impactando carteiras de crédito, aumento do custo de capital em função de tensões geopolíticas e novas exigências regulatórias mais rigorosas. Esses foram alguns dos principais pontos trazidos por Fabio Guido, superintendente de Sustentabilidade do Itaú, em apresentação à Comissão de ESG da ABBC, em março, ao destacar como a combinação desses fatores está mudando, na prática, a forma como bancos operam e tomam decisão.

Segundo Guido, o ambiente atual exige uma leitura mais integrada de risco. A escalada recente de conflitos internacionais, por exemplo, já pressiona a inflação e encarece a logística global, tornando o crédito mais seletivo e elevando o custo de financiamento. Ao mesmo tempo, esses choques dificultam a transição energética no curto prazo, ao encarecer cadeias produtivas “verdes” e ampliar a dependência de combustíveis fósseis.

Na outra ponta, os impactos climáticos deixaram de ser projeção e passaram a afetar diretamente os resultados. Quebras de safra, aumento de sinistros e desvalorização de ativos já aparecem como riscos concretos para instituições financeiras. Para Guido, esse cenário reforça o alerta de reguladores globais: se não forem bem geridos, os riscos climáticos podem evoluir para uma crise financeira sistêmica.

O avanço regulatório é outro vetor que acelera mudanças no setor. No Brasil, iniciativas como a taxonomia sustentável, o mercado regulado de carbono e as normas IFRS S1 e S2 estão elevando o nível de exigência sobre dados, mensuração de impactos e transparência. Na prática, isso exige que bancos incorporem variáveis ESG de forma mais estruturada nas análises de crédito, risco e estratégia.

Apesar do aumento de complexidade, Guido destacou que o Brasil parte de uma posição privilegiada na transição. Com matriz elétrica majoritariamente renovável e forte presença de ativos naturais, o país pode capturar oportunidades relevantes em uma economia de baixo carbono — com potencial trilionário em investimentos e novos negócios.

A apresentação também trouxe sinais claros de como o setor já vem se adaptando. Há exemplos de bancos de porte S1 que vêm integrando de forma consistente os fatores ESG à estratégia de negócios, com definição de metas de descarbonização, ampliação de produtos e serviços sustentáveis e compromissos robustos de mobilização de capital para financiar a transição para uma economia de baixo carbono.

Esse movimento inclui desde o desenvolvimento de soluções para clientes — como crédito direcionado, instrumentos de mercado de capitais e apoio à transição em setores intensivos em carbono — até o aprimoramento da mensuração de emissões financiadas e maior transparência na divulgação de riscos e impactos climáticos.

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