Em debate no Fórum Bancos & Banking 2026, mercado e regulador convergem sobre a necessidade de maior equilíbrio entre avanço tecnológico e gestão de riscos

No dia 18 de maio, o WTC Event Center, em São Paulo, foi palco de um dos principais encontros do setor financeiro em 2026. O Fórum Bancos & Banking, promovido pela Cantarino Brasileiro em correalização com a Acrefi e apoio da ABBC, reuniu executivos, reguladores e especialistas para discutir, de forma direta, os caminhos de um sistema financeiro cada vez mais digital, integrado — e exposto a novos riscos.
Ao longo do dia, os debates deixaram claro que o setor vive um momento de inflexão: a mesma inovação que impulsiona eficiência, inclusão e escala também amplia a complexidade operacional e os desafios de segurança. Temas como inteligência artificial, Open Finance, tokenização, capital e cibersegurança dominaram a agenda, refletindo um mercado que já não discute o futuro — mas como sustentar o presente.
Esse tom ficou ainda mais evidente no painel “Inovação x Regulação”, um dos destaques do evento, que reuniu Leandro Vilain, CEO da ABBC, e Aristides Cavalcante, chefe do Depto. de Gestão Estratégica e Supervisão Especializada do Banco Central do Brasil. O mediador foi Giancarllo Melito, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados. De um lado, a visão do regulador; de outro, a perspectiva do mercado — convergindo em um ponto central: não existe inovação sustentável sem segurança.


Leandro Vilain, CEO da ABBC, e Aristides Cavalcante, chefe do Depto. de Gestão Estratégica e Supervisão Especializada do Banco Central do Brasil (fotos: Fernando Mucci/Cantarino Brasileiro)
Aristides trouxe um diagnóstico direto: o sistema financeiro mudou estruturalmente. Iniciativas como Pix, Open Finance e tokenização romperam o modelo tradicional, antes concentrado dentro das instituições, e criaram um ambiente altamente interconectado — mais eficiente, mas também com novas vulnerabilidades. Esse novo cenário já se reflete no aumento relevante de incidentes e fraudes, que cresceram de forma significativa nos últimos anos.
Os dados apresentados reforçaram o alerta. Embora o setor siga evoluindo em segurança, parte relevante das instituições precisa melhorar sua gestão de risco tecnológico; muitas necessitam conhecer melhor seu apetite a risco; e há espaço para a melhoria de tecnologias de segurança, inclusive em processos críticos. Aristides ainda apontou a preocupação do BCB no aperfeiçoamento na governança de dados de algumas instituições, assim como na elevação da maturidade no uso de inteligência artificial e no reforço no controle de APIs — pontos que, segundo o regulador, precisam ser enfrentados hoje antes de avançar em novas ondas de inovação.
A mensagem foi clara: antes de acelerar, é preciso estruturar. O Banco Central, nesse sentido, avança com uma agenda que inclui o fortalecimento da supervisão, o uso de inteligência artificial no monitoramento do sistema, o mapeamento completo da infraestrutura tecnológica das instituições e maior rigor na identificação de riscos, especialmente os cibernéticos, cada vez mais sofisticados.

Na visão do mercado, Leandro Vilain trouxe um contraponto igualmente contundente: o Brasil já é referência global em inovação financeira. Com um sistema altamente digitalizado, o país alcançou níveis de eficiência e escala raros, impulsionados por iniciativas como o Pix — hoje responsável por bilhões de transações mensais — e pelo avanço acelerado do Open Finance .
Mas o CEO da ABBC fez um alerta direto: a busca por velocidade não pode comprometer a segurança. A evolução do sistema financeiro trouxe novos vetores de risco — da engenharia social aos ataques cibernéticos sofisticados — potencializados por tecnologias como a inteligência artificial. Nesse contexto, a segurança deixou de ser apenas um tema operacional e passou a ser um fator crítico de estabilidade e confiança.

Leandro destacou ainda a crescente complexidade do ecossistema, com a proliferação de APIs, serviços em nuvem, fintechs, modelos de Banking as a Service e novas infraestruturas digitais. Esse ambiente amplia as superfícies de ataque e exige uma mudança de postura das instituições, com maior atenção a fornecedores, investimentos em proteção e amadurecimento da gestão de riscos.
Também ressaltou o papel da regulação nesse processo, citando avanços recentes em normas de risco cibernético e capital mínimo como medidas necessárias para garantir a solidez do sistema — ainda que desafiadoras para o setor. Ao final, o painel deixou uma mensagem inequívoca: o Brasil tem todas as condições de seguir na liderança global da inovação financeira. Mas esse protagonismo dependerá da capacidade do setor — público e privado — de equilibrar velocidade com responsabilidade.


