Evento da Acrefi em parceria com a ABBC abordou benefícios do uso de recebíveis como garantia, ajustes técnicos em discussão e soluções para integrar instituições ao novo ecossistema

A implementação da Duplicata Escritural entrou em uma nova etapa, marcada pelo início da produção assistida e pelo avanço das adaptações necessárias para conectar as instituições ao novo ecossistema de recebíveis. O tema foi discutido nesta terça-feira (1º), durante o workshop on-line “Recebíveis Digitais: O Presente e o Futuro da Duplicata Escritural”, promovido pela Acrefi para seus associados.
O workshop foi conduzido por Marcos Pedroso, gerente de Negócios da ABBC, e Michelle Papalardo, gerente de Regulação e Produtos da ABBC.
Durante o encontro, Pedroso explicou que a duplicata passa a ser tratada como um ativo digital, que pode ser escriturado, registrado, negociado, utilizado como garantia e acompanhado ao longo de todo o seu ciclo. Mais do que substituir o documento físico por um registro digital, a mudança altera a infraestrutura do mercado de crédito.
A padronização e a circulação estruturada das informações entre empresas, escrituradoras, registradoras e instituições financeiras podem aumentar a segurança no uso dos recebíveis como garantia, facilitar o acompanhamento das operações e ampliar a automação. Nesse processo, sacador é a empresa que origina o recebível, enquanto sacado é o cliente responsável pelo pagamento.
Para Michelle Papalardo, a maior visibilidade sobre esses ativos também pode contribuir para ampliar o acesso de micro e pequenas empresas ao crédito. Com mais instituições capazes de consultar as duplicatas e avaliar as operações, o novo ambiente pode estimular a concorrência entre financiadores e ampliar as alternativas de crédito para diferentes perfis de negócios.
A adaptação, porém, não envolve apenas tecnologia. As instituições precisam revisar sistemas, processos, contratos e jornadas dos clientes, além de preparar áreas como crédito, operações, tecnologia, riscos, compliance e jurídico. Entre as etapas estão o cadastro das partes, gestão de autorizações, consulta aos ativos, registro de contratos, cessão, conciliação, liquidação e tratamento de contestações.
A produção assistida já está em andamento, e a segunda fase do tombamento — processo de incorporação das operações de crédito existentes ao novo ambiente — está sendo preparada. Segundo Papalardo, essa etapa depende de ajustes técnicos relacionados à priorização dos contratos e ao tratamento de modalidades como promessa de cessão e risco sacado, além da definição dos procedimentos para eventuais contestações.
Outro ponto em desenvolvimento é a integração com o boleto dinâmico, que permitirá atualizar o beneficiário final de uma cobrança após a negociação do recebível, sem a necessidade de emitir um novo boleto. Também estão sendo avaliadas as interfaces com o Split Payment, mecanismo da reforma tributária que separa automaticamente os tributos no momento do pagamento e poderá demandar adaptações nos leiautes e no tratamento dos valores envolvidos nas operações de crédito.
Nesse processo de adaptação, a ABBC apresentou a evolução do Hub de Duplicatas, desenvolvido para facilitar a conexão das instituições ao ecossistema. A solução funciona como uma camada de conexão e orquestração e não substitui as escrituradoras. Na prática, concentra parte da integração necessária para que uma instituição opere com diferentes infraestruturas.
O Hub pode ser utilizado por meio de portal ou APIs. O portal permite iniciar as operações enquanto os sistemas internos da instituição são preparados, facilitando o aprendizado e a revisão dos processos durante a produção assistida. Em uma etapa posterior, as funcionalidades podem ser incorporadas diretamente às jornadas digitais por meio das APIs.
Entre os recursos estão a consulta à agenda de recebíveis, gestão de autorizações, cadastramento de contratos, auditoria e padronização das informações recebidas em diferentes leiautes. A solução também oferece uma visão integrada das escrituradoras, reduzindo a necessidade de desenvolver e manter conexões separadas.
A proposta é que a adaptação ao novo modelo não seja apenas uma obrigação tecnológica, mas também uma oportunidade de negócio. Segundo a ABBC, a infraestrutura poderá evoluir para apoiar serviços de inteligência de crédito, gestão de garantias e automações, contribuindo para ampliar a capacidade de financiamento, melhorar a experiência dos clientes e desenvolver novos produtos e serviços.


