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Febraban Tech 2026 evidencia nova fase de transformação do sistema financeiro

Evento reuniu autoridades, líderes do setor e especialistas para discutir os impactos da IA, da digitalização e das novas tecnologias sobre crédito, produtividade, segurança e relacionamento com clientes; ABBC participou dos debates em painéis sobre temas como Open Finance, ecossistema de fintechs e BaaS

Febraban Tech 2026 foi realizado em São Paulo e reuniu lideranças do setor financeiro (foto: Febraban Tech/Divulgação)

Entre os dias 24 e 26 de agosto, foi realizado em São Paulo o Febraban Tech 2026, um dos maiores eventos de debates sobre tecnologia, inovação e futuro do setor financeiro. Com o tema central Agentes inteligentes, liderança humana, o congresso teve a abertura do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, seguida de um painel com os CEOs dos maiores bancos do país, e reuniu keynote speakers internacionais, como o Joel Mokyr, vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2025; Radia Perlman, fellow da Dell Technologies e engenheira reconhecida mundialmente como a “mãe da Internet”, e John Maeda, referência internacional em design computacional, inteligência artificial e liderança criativa. A ABBC esteve presente em diversos painéis abordando inovação e produtos ligados a ecossistemas como os do Open Finance, de fintechs e do BaaS (Banking as a Service).

Confira a seguir os principais destaques da programação.

Galípolo ressalta inclusão financeira e reforça atenção à qualidade do crédito

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na abertura da Febraban Tech 2026 (foto: Febraban Tech/Divulgação)

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, destacou, na abertura da Febraban Tech 2026, os avanços do Pix na inclusão financeira, especialmente entre a população de baixa renda, mas alertou para os desafios associados à expansão do crédito e ao aumento do endividamento das famílias.

Segundo Galípolo, o Pix ampliou o acesso da população aos serviços financeiros e também ao cartão de crédito. Em 2025, o sistema movimentou R$ 35 trilhões em cerca de 80 bilhões de transações e alcançou 148 milhões de pessoas físicas. Para o presidente do BC, a evolução da infraestrutura de pagamentos também contribuiu para reduzir custos e riscos historicamente associados às defasagens entre pagamentos e liquidações.

O presidente do BC também ressaltou que o cenário atual exige atenção à qualidade do crédito. Galípolo afirmou que nem todo endividamento é negativo: financiamentos destinados à aquisição de ativos, como imóveis, têm características diferentes de dívidas utilizadas para consumo efêmero, especialmente quando envolvem juros elevados e ausência de garantias.

O alerta ocorre em um contexto de aumento do endividamento das famílias, que chegou a 49,8% da renda anual, mesmo com desemprego de 5,4% e renda disponível recorde de R$ 822 bilhões. Entre os pontos de atenção estão o cartão de crédito, o consignado privado e o crédito pessoal não consignado sem garantia.

Diante desse quadro, o BC defende maior alinhamento entre risco, preço e provisões das instituições financeiras, além de medidas macroprudenciais. Galípolo também destacou a necessidade de avançar na chamada “cidadania financeira”, com uso responsável dos produtos e maior adequação das linhas ao perfil dos consumidores.

A apresentação também abordou medidas de segurança, prevenção a fraudes e aprimoramento do ambiente digital, reforçando que inclusão, modernização do sistema e estabilidade financeira precisam avançar de forma conjunta.

Os CEOs dos bancos no painel Agentes inteligentes, liderança humana: como os bancos estão redesenhando escala, confiança e valor no setor financeiro (foto: Febraban Tech/Divulgação)

Painel com CEOs dos bancos: IA vira condição de competitividade para IFs, mas avanço exige governança e responsabilidade

A inteligência artificial deixou de ser uma aposta futura e passou a ser tratada pelos principais bancos como condição de competitividade. Na abertura da Febraban Tech 2026, CEOs de Itaú unibanco, Bradesco, Caixa, BTG Pactual, Santander e Nubank relataram avanços no uso de IA generativa, modelos preditivos e agentes inteligentes para ampliar produtividade, conhecer melhor os clientes e aprimorar serviços. Roberto Sallouti, do BTG, afirmou que a questão já é “onde não estamos usando IA”.

Os executivos, porém, destacaram que a expansão da tecnologia deve ser acompanhada de ética, segurança e governança. Para Gilson Finkelsztain, do Santander, governança não é inibidora de inovação. O debate também tratou de endividamento, equilíbrio fiscal, juros, crédito e produtividade, com avaliação de que a IA poderá gerar ganhos expressivos de eficiência.

Nobel da Economia diz que maior inimigo do avanço não é a tecnologia, somos nós

Nobel de Economia de 2025 Joel Mokyr fala durante o evento realizado em São Paulo (foto: Febraban Tech/Divulgação)

O Nobel de Economia de 2025 Joel Mokyr afirmou, durante a Febraban Tech 2026, que a humanidade ainda está no início de uma nova onda de avanço tecnológico. Professor da Northwestern University e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, Mokyr destacou que ciência e tecnologia formam um ciclo de retroalimentação capaz de acelerar descobertas e inovação.

Para ele, porém, o principal risco ao progresso não está na tecnologia, mas na dificuldade das instituições de acompanhar sua velocidade. Governos e reguladores podem não se adaptar rapidamente, enquanto nacionalismo econômico, fragmentação entre potências, populismo, xenofobia e desinformação ameaçam a cooperação científica e a circulação de pesquisadores.

A inteligência artificial foi apontada como uma “ferramenta definitiva” para acelerar pesquisas. Mokyr citou potencial de avanços em áreas como fusão nuclear, envelhecimento celular e medicina, com impactos sobre energia, longevidade e tratamento de doenças.

ABBC no Febraban Tech

Os participantes do painel Consentimento e valor, o novo contrato com o cliente: Leandro Vilain, CEO da ABBC; Patricia Sousa, diretora de Plataformas Digitais e líder de Produtos de Cartões Comerciais do Citi; Eduarda Davidovic, diretora de Inovação e Tecnologia Bancária da Febraban; Heitor Bernardes, diretor Tech do Bradesco; e Ricardo Morishita, secretário nacional do Consumidor (fotos: Eduardo Merli)

Durante sua participação no painel Consentimento e valor, o novo contrato com o cliente, na Febraban Tech 2026, o CEO da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Leandro Vilain, destacou a necessidade de uma nova abordagem para o tratamento e a qualidade dos dados no ecossistema do Open Finance. Segundo o executivo, o avanço do sistema, que já alcança a marca de até 12 bilhões de chamadas de API por semana, exige o uso de tecnologias capazes de acompanhar esse volume de informações.

Vilain participou do debate ao lado de Eduarda Davidovic, diretora de Inovação e Tecnologia Bancária da Febraban; Heitor Bernardes, diretor Tech do Bradesco; Patricia Sousa, diretora de Plataformas Digitais e líder de Produtos de Cartões Comerciais do Citi; e Ricardo Morishita, secretário nacional do Consumidor.

Para o CEO da ABBC, não é mais possível administrar a escala atual do Open Finance por meio de processos tradicionais. O executivo destacou que algumas instituições financeiras já começam a utilizar Inteligência Artificial (IA) para apoiar a validação e o monitoramento da qualidade dos dados.

Vilain ressaltou ainda que o setor debate esse desafio há cerca de um ano e que não é possível permanecer indefinidamente na discussão sem avançar para soluções concretas. Para ele, o momento de agir é agora, antes que eventuais problemas relacionados à qualidade dos dados possam chegar aos clientes.

“A qualidade de dados é um desafio como um todo no sistema financeiro. Temos dois ângulos fundamentais para o uso de dados: o primeiro é utilizá-los para gerar resultados; o segundo, de monitoramento de entrada, é responder à pergunta: a informação que chega é de qualidade?”, observou o CEO.

O executivo também destacou a preocupação com o fluxo de dados dentro do ecossistema de Open Finance. À medida que mais informações circulam entre diferentes instituições e participantes, garantir que esses dados sejam completos, consistentes e confiáveis se torna fundamental para a evolução do sistema.

Para a ABBC, a qualidade dos dados é uma condição essencial. Somente com essa premissa cumprida, o Open Finance poderá avançar de forma segura e eficiente. Nesse cenário, a IA ganha espaço não apenas na criação de novos produtos e serviços, mas também no tratamento, na validação e no monitoramento das informações que sustentam o funcionamento do sistema financeiro.

No dia 25 de agosto, durante o painel O amadurecimento do ecossistema fintech: novos padrões de compliance, governança e autorregulação, Euricion Murari, diretor de Inovação e Serviços da ABBC, defendeu que o mercado de fintechs está entrando em uma fase menos preocupada com crescimento a qualquer custo e mais focada em segurança, controles e sustentabilidade do negócio.

Euricion Murari fala durante o painel “O amadurecimento do ecossistema fintech: novos padrões de compliance, governança e autorregulação”. Também participaram do debate: Eduarda Davidovic (Febraban), Regina Pedroso (ABToken), Sergio Costantini (ABFintechs) e Bruno Diniz (Spiralem Innovation Consulting) (foto: Febraban Tech/Divulgação)

Segundo Murari, o mercado passou por um período de expansão rápida, com o surgimento de novos modelos de negócio e empresas. Agora, a preocupação é fazer essas operações funcionarem de forma consistente e com controles compatíveis com o tamanho dos riscos.

“Estamos passando por um momento em que a gente sai da corrida do ouro e vai para uma visão mais sustentável”, afirmou.

O executivo também destacou a atuação dos bancos associados à ABBC na relação com fintechs. “Os associados da ABBC são um verdadeiro laboratório para as fintechs”, disse. No BaaS, terceirizar não significa transferir a responsabilidade.

Outro ponto importante do painel foi o crescimento do Banking as a Service (BaaS), modelo em que uma instituição financeira fornece a infraestrutura bancária para que outras empresas ofereçam serviços como contas, pagamentos e cartões.

O modelo permite que uma empresa entre no mercado financeiro sem precisar construir toda essa estrutura do zero. O problema é que, quanto mais serviços são terceirizados, maior é a necessidade de acompanhar de perto quem presta esses serviços.

Para Murari, esse é um dos principais desafios para bancos e instituições que operam nesse mercado: saber exatamente quais empresas estão na cadeia, quais atividades executam e quais controles adotam. “O risco está compartilhado, diluído; a responsabilidade perante o regulador, não”, afirmou.

Na prática, isso significa que uma instituição financeira não deixa de ser responsável perante o Banco Central porque determinada atividade foi executada por um parceiro ou por um Provedor de Serviços de Tecnologia da Informação (PSTI). Por isso, a contratação de terceiros precisa vir acompanhada de mecanismos de acompanhamento, controles de segurança, gestão de acessos, monitoramento e planos para responder a incidentes. Murari resumiu o problema com uma comparação: “Não se pode colocar uma porta com milhares de travas e, do outro lado, ter uma porta só encostada e sem chave nenhuma.”

A preocupação ganha importância à medida que bancos e fintechs dependem de uma cadeia cada vez maior de fornecedores de tecnologia. Um problema em um desses fornecedores pode afetar diretamente o serviço oferecido ao cliente, mesmo que a instituição financeira não tenha desenvolvido aquela tecnologia.

Segurança deixa de ser apenas um problema de TI

Por fim, o painel abordou a mudança na forma como as instituições financeiras encaram sua infraestrutura tecnológica. Para Murari, não basta conhecer e acompanhar o cliente. É preciso também conhecer e acompanhar os parceiros que sustentam a operação — principalmente aqueles que têm acesso a sistemas, dados ou processos críticos.

Essa mudança aumenta a importância de temas como gestão de terceiros, cibersegurança e continuidade dos serviços. São controles que, na prática, ajudam a evitar que uma falha em uma empresa contratada se transforme em um problema para o banco e para seus clientes.

Autorregulação busca criar uma rede de confiança

A discussão também passou pela autorregulação do setor financeiro. Para Murari, o objetivo não deve ser simplesmente criar mais regras, mas estabelecer padrões que sejam conhecidos e aplicados pelas empresas que participam do mercado. “Autorregulação é muito menos sobre criar regras e mais sobre chegar a uma cadeia de confiança. As associações acabam fazendo muito esse papel”, afirmou Euricion Murari.

Nesse modelo, entidades representativas podem aproximar bancos, fintechs e outros participantes do mercado para discutir problemas comuns e estabelecer referências de boas práticas. A ideia é complementar a regulação oficial e ajudar o setor a lidar com questões que surgem com a evolução dos modelos de negócio.

Participaram do painel “O amadurecimento do ecossistema fintech: novos padrões de compliance, governança e autorregulação” Eduarda Davidovic (Febraban), Regina Pedroso (ABToken), Sergio Costantini (ABFintechs) e Bruno Diniz (Spiralem Innovation Consulting), além de Euricion Murari, da ABBC.

Saiba mais sobre o evento em: FEBRABAN TECH – ponto de encontro do mercado financeiro

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