
Produtos da ABBC, Everton Gonçalves, durante do Encontro de Economia Bancária da ABBC
A economia brasileira entrou em um novo ciclo marcado por maior capacidade de resistir a choques, mas deverá conviver com um ambiente de elevada instabilidade financeira nos próximos anos.
Essa foi a principal mensagem apresentada por Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, durante o Encontro de Economia Bancária – Cenário Econômico para 2026, promovido pela ABBC no dia 19 de dezembro.
O evento on-line foi mediado por Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da associação, e reuniu os profissionais que atuam nas comissões de Gestão de Risco, Produtos, Tesouraria, Câmbio e Auditoria da ABBC.
Na abertura do encontro, Gonçalves observou que o ano se encerra com inflação menor do que a inicialmente projetada, juros ainda elevados e uma desaceleração gradual da atividade econômica, sem rupturas relevantes.
Para ele, esse contexto reforça a necessidade de análises cuidadosas sobre a qualidade dos ativos e o comportamento do crédito, especialmente em um ambiente de mudanças regulatórias e de maior sensibilidade aos riscos.
Diante deste cenário, Roberto Padovani apresentou sua avaliação sobre os panoramas para 2026 e 2027, estruturada em duas mensagens centrais.
A primeira é que os economistas vêm subestimando sistematicamente o crescimento do PIB brasileiro desde a pandemia, o que revela uma mudança estrutural relevante no funcionamento da economia.
Na avaliação dele, o país hoje apresenta fundamentos que reduzem significativamente a probabilidade de uma recessão no horizonte de 2026 a 2028, mesmo em um cenário global mais desafiador.
A maior resiliência econômica, explicou, está associada a três fatores principais: o peso crescente das exportações na estrutura do PIB, com destaque para o agronegócio, mineração e petróleo; um mercado de trabalho aquecido, que sustenta renda e consumo; e um ambiente institucional mais estável, fruto de reformas que aumentaram a previsibilidade econômica. Esse conjunto tem permitido que a atividade cresça de forma mais estável, com menor volatilidade do que no passado.

Para o setor bancário, esse diagnóstico reduz o risco de eventos extremos no crédito. “Se não há recessão, diminui muito a chance de uma crise financeira ou de crédito”, avaliou Padovani, ao destacar que problemas sistêmicos costumam surgir em ciclos de forte contração econômica, o que não está no cenário-base projetado pelo banco.
A segunda mensagem central da apresentação trouxe um alerta direto ao sistema financeiro.
Apesar da maior solidez da economia real, Padovani avaliou que o ambiente financeiro deverá ser marcado por instabilidade elevada em 2026 e 2027, impulsionada por incertezas no cenário internacional, volatilidade nos mercados e dificuldade de antecipação da política monetária global.
Esse quadro tende a manter prêmios de risco pressionados e o custo do dinheiro em níveis elevados por mais tempo.


Nesse contexto, o economista destacou que parte dessa instabilidade está relacionada à forte valorização recente dos ativos de tecnologia nos Estados Unidos, impulsionada pelas expectativas em torno da inteligência artificial.
Embora a IA represente um avanço estrutural relevante para a produtividade, Padovani ponderou que ainda há grande incerteza quanto ao ritmo e à intensidade com que esses ganhos se materializarão.
Essa dificuldade de precificação aumenta o risco de movimentos excessivos nos mercados e de correções abruptas, com potencial impacto sobre as condições financeiras globais, a percepção de risco e o custo de financiamento.

Para os bancos, esse ambiente exige uma combinação entre atuação ativa no crédito e maior conservadorismo na concessão.
Padovani ressaltou que, embora não veja um cenário de crise de crédito, a seletividade será essencial, com critérios técnicos mais rigorosos e atenção redobrada à alavancagem, à estrutura de capital e à capacidade de geração de caixa dos clientes.
Os casos recentes de deterioração observados no mercado, segundo ele, estão mais ligados a fragilidades financeiras individuais do que a setores ou regiões específicas.
Ao final, o Encontro de Economia Bancária ofereceu aos profissionais do setor uma leitura clara: a economia brasileira está mais sólida do que no passado recente, mas navegar um ambiente financeiro instável exigirá disciplina, prudência e decisões de crédito cada vez mais bem fundamentadas.


