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Duplicata Escritural pode ter impacto similar ao do Pix e Open Finance

Em evento da Núclea, executivos de grandes bancos projetam que a Duplicata Escritural deve transformar a gestão financeira das empresas e abrir oportunidades em um mercado estimado em R$ 11 trilhões

O evento sobre Duplicata Escritural, Split Payment e Boleto Dinâmico foi realizado em São Paulo, promovido pela Núclea, e reuniu regulador, governo e mercado em torno das oportunidades e desafios da jornada de implementação das três novidades no segmento de pagamentos

Representantes do governo, de bancos, entidades e empresas de tecnologia participaram no último dia 9 de um evento promovido pela Núclea, em São Paulo, para discutir os impactos da Duplicata Escritural, do Boleto Dinâmico e do Split Payment na evolução do mercado de crédito brasileiro. Ao longo da programação, o consenso foi de que a nova infraestrutura tem potencial para provocar uma transformação comparável à promovida pelo Pix nos pagamentos e pelo Open Finance no compartilhamento de dados financeiros.

Na abertura, João Paulo Borges, coordenador-geral de Regulação do Sistema Financeiro da Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, abordou a agenda governamental voltada à democratização do crédito e apontou a Duplicata Escritural como um instrumento capaz de reduzir assimetrias de informação, ampliar a segurança e contribuir para a redução do custo do crédito. Borges também ressaltou a importância da educação do mercado e da construção de um ambiente de confiança para que os benefícios da nova estrutura se materializem.

Ao longo da tarde, os debates revelaram que, embora o potencial da iniciativa seja amplamente reconhecido, ainda há desafios relevantes relacionados à comunicação com as empresas, à segurança, à integração entre sistemas e à capacidade operacional das instituições financeiras.

Painel 1 – Ecossistema de Duplicatas: como reduzir a fricção e os impactos da implantação

Moderado por Rafael Pedrão, superintendente de Negócios da Núclea, o painel inaugural do evento reuniu Marcelo Serfaty, CEO da Liber; Edson Silva, CEO da Nexxera; Henrique Moraes, CEO da Equifax; Henrique Echenique, CEO da Mercado de Recebíveis; e Christian de Cico, cofundador e co-CEO da Qive.

Os participantes defenderam que a Duplicata Escritural representa uma oportunidade para transformar recebíveis em ativos mais seguros, rastreáveis e líquidos, abrindo espaço para um mercado de crédito mais eficiente. A expectativa é que a padronização das informações e a maior visibilidade sobre os recebíveis reduzam assimetrias de informação, permitam análises de risco mais sofisticadas e ampliem a competição entre instituições financeiras e investidores.

Os executivos também destacaram que a combinação de dados financeiros e operacionais deverá melhorar os modelos de concessão de crédito, beneficiando especialmente micro, pequenas e médias empresas. Ao mesmo tempo, alertaram que os ganhos esperados dependem de forte integração entre registradoras, instituições financeiras, empresas e plataformas tecnológicas.

Outro tema recorrente foi a prevenção a fraudes. Os participantes ressaltaram que a qualidade das informações e a rastreabilidade das operações serão fundamentais para aumentar a confiança no sistema. Também defenderam investimentos em educação e capacitação para facilitar a adoção do novo modelo e evitar que a complexidade da infraestrutura se torne uma barreira para os usuários.

Moderado por Rafael Pedrão (à direita), superintendente de Negócios da Núclea, o painel inaugural do evento reuniu Marcelo Serfaty, CEO da Liber; Edson Silva, CEO da Nexxera; Henrique Moraes, CEO da Equifax; Henrique Echenique, CEO da Mercado de Recebíveis; e Christian de Cico, cofundador e co-CEO da Qive

Painel 2 – Desafios e oportunidades da implementação da Duplicata Escritural

Moderado por André Daré, CEO da Núclea, o painel reuniu Rodrigo Gualano Luiz, diretor de Produtos Ativos PJ e Garantias do Itaú Unibanco; Lucas Nogueira, diretor de Produtos PJ do Bradesco; e Paulo Duailibi, diretor de Lending & Cash Management do Santander.

Representando algumas das maiores carteiras de crédito corporativo do país, os executivos convergiram na avaliação de que a Duplicata Escritural não será apenas uma nova modalidade de garantia, mas uma infraestrutura capaz de alterar a forma como empresas administram crédito, caixa e capital de giro.

Paulo Duailibi afirmou que a transformação pode ter impacto semelhante ao observado com Pix e Open Finance. Segundo o executivo do Santander, a combinação entre dados, inteligência artificial e novos modelos de financiamento deverá democratizar o acesso a ferramentas mais sofisticadas de gestão financeira, especialmente para pequenas e médias empresas, que historicamente tiveram acesso restrito a soluções disponíveis para grandes corporações.

Lucas Nogueira avaliou que o aumento da competição deverá mudar a forma de atuação dos bancos. Na sua visão, crédito deixará de ser o principal diferencial das instituições, que precisarão agregar serviços e soluções capazes de aumentar a produtividade e a eficiência das empresas. O executivo destacou que pequenas empresas demandarão jornadas simples e intuitivas, enquanto grandes companhias exigirão integração com ERPs e plataformas próprias.

Já Rodrigo Gualano Luiz chamou atenção para a necessidade de transformar a complexidade regulatória em uma experiência transparente para os clientes. O executivo do Itaú destacou ainda as oportunidades que surgirão da combinação entre Duplicata Escritural e Split Payment, sobretudo em um cenário em que a reforma tributária exigirá uma nova gestão dos fluxos financeiros das empresas.

Apesar do otimismo, os três executivos apontaram desafios importantes. Educação do mercado e treinamento das equipes apareceram como fatores críticos para o sucesso da iniciativa. A crescente sofisticação das fraudes e os riscos relacionados às operações de risco sacado e à troca indevida de domicílios bancários também foram apontados como pontos de atenção. A percepção comum foi de que os benefícios da nova infraestrutura serão construídos gradualmente e dependerão da capacidade do mercado de evoluir de forma coordenada.

Moderado por André Daré (à direita), CEO da Núclea, o painel reuniu Rodrigo Gualano (à esq) Luiz, diretor de Produtos Ativos PJ e Garantias do Itaú Unibanco; Lucas Nogueira, diretor de Produtos PJ do Bradesco; e Paulo Duailibi (com o microfone), diretor de Lending & Cash Management do Santander

Painel 3 – Boleto Dinâmico e Split Payment

Conduzido por Joyce Saika, vice-presidente Financeira, Jurídica e de Relações com Investidores da Núclea, o painel reuniu Mozart Xavier, gerente de projetos do Banco do Brasil, e Evaristo Araújo, do Banco Central.

Os participantes destacaram que o Split Payment é muito mais do que uma ferramenta tributária e deverá se tornar um dos pilares da reforma tributária. A principal inovação do modelo brasileiro será a conexão entre pagamento e nota fiscal, permitindo a apropriação automática dos créditos tributários e trazendo mais previsibilidade para o fluxo financeiro das empresas.

Mozart Xavier destacou que o projeto é resultado de um esforço conjunto que já mobilizou centenas de reuniões entre instituições financeiras, associações, Receita Federal, Banco Central e Comitê Gestor da reforma tributária. Segundo ele, a primeira etapa será opcional para as empresas e concentrada nas operações B2B realizadas por meio de boleto, Pix, TED e transferências internas.

O executivo do Banco do Brasil também observou que o Split Payment não deve ser visto apenas como um mecanismo de recolhimento de impostos. A possibilidade de utilização dos créditos tributários no momento da liquidação pode melhorar o fluxo de caixa das empresas e aumentar a eficiência das operações.

Evaristo Araújo ressaltou que a implementação exigirá elevado grau de coordenação entre mercado e reguladores. Segurança, interoperabilidade e governança apareceram como requisitos fundamentais para que a infraestrutura funcione de maneira confiável. Na avaliação dos participantes, a integração entre Split Payment, Boleto Dinâmico e Duplicata Escritural deverá alterar a dinâmica dos pagamentos empresariais e da gestão financeira nos próximos anos.

Antes do painel 4, os presentes ao evento puderam acompanhar uma explicação resumida e prática do projeto do Split Payment, com Ricardo Pandur (Strategy Associate Director da Accenture) e de como funcionará o fluxo do boleto dinâmico, com Marcelo Pereira (Gerente de Negócios da Núclea).

Conduzido por Joyce Saika, vice-presidente Financeira, Jurídica e de Relações com Investidores da Núclea, o painel reuniu Mozart Xavier, gerente de projetos do Banco do Brasil, e Evaristo Araújo, do Banco Central

Painel 4 – Impactos e desafios do mercado

Encerrando o evento, Rodrigo Furiato, vice-presidente de Negócios da Núclea, mediou um debate entre Leandro Vilain, CEO da ABBC, e Ivo Mósca, diretor executivo de Inovação, Produtos e Segurança da Febraban.

Os representantes das duas entidades fizeram um balanço dos desafios da implementação e defenderam que o sucesso da Duplicata Escritural dependerá menos do cumprimento rígido de cronogramas e mais da capacidade de adaptação e aperfeiçoamento contínuo do sistema.

Leandro Vilain comparou o projeto às transformações promovidas pelo Pix e pelo Open Finance, mas alertou que a experiência dessas iniciativas mostrou a importância de evoluir com pragmatismo. O executivo destacou que as instituições financeiras, especialmente as de médio porte, convivem simultaneamente com projetos como CNPJ alfanumérico, Boleto Dinâmico, Split Payment e Duplicata Escritural, o que aumenta a pressão sobre tecnologia, equipes e investimentos.

O CEO da ABBC também chamou atenção para o desafio de comunicação junto às empresas e para o avanço das fraudes. Segundo ele, os ataques cibernéticos deixaram de ser um problema individual para se tornarem uma questão de indústria, exigindo mecanismos de resposta mais rápidos e cooperação permanente entre instituições. Vilain ainda alertou que os custos operacionais da nova infraestrutura não podem consumir os ganhos esperados em redução do custo do crédito.

Ivo Mósca reforçou que a oportunidade é expressiva em um mercado estimado em R$ 11 trilhões, mas destacou que a experiência do Pix e do Open Finance mostrou a importância da governança e da capacidade de realizar ajustes ao longo da implementação. Para o executivo da Febraban, começar de forma simples e incorporar aprendizados ao longo do caminho será fundamental para garantir que a nova infraestrutura entregue os benefícios esperados. Ele reforçou a atenção aos golpes e fraudes e pediu reforço e esforço de todo o escossistema para a segurança cibernética, um grande desafio na sua visão.

Ao final, os dois representantes convergiram em uma mesma avaliação: a transformação é inevitável. O desafio será garantir que ela ocorra com segurança, eficiência e capacidade de gerar benefícios concretos para empresas, instituições financeiras e usuários finais.

Encerrando o evento, Rodrigo Furiato (à direita), vice-presidente de Negócios da Núclea, mediou um debate entre Leandro Vilain (à esquerda), CEO da ABBC, e Ivo Mósca (ao centro), diretor executivo de Inovação, Produtos e Segurança da Febraban

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