No ano passado, a conjunção de um mercado de trabalho robusto com o forte dinamismo no mercado de crédito deu suporte à expressiva expansão da demanda agregada. Contudo, no que tange à avaliação da evolução prospectiva dos empréstimos, a última Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito do Banco Central (BC) apresentou uma perspectiva de deterioração das condições de oferta de crédito bancário e um sentimento de menor tolerância ao risco por parte das instituições financeiras.
Em contrapartida, o cenário no mercado de capitais ainda não apresenta sinais de inflexão a despeito das alterações significativas nas condições financeiras. Enquanto, o crescimento do saldo de operações do Crédito Ampliado ao Setor Não Financeiro (CASNF) acelerou de 8,3% em 2023 para 13,9% em 2024, a expansão do estoque de títulos privados elevou-se no período de 15,0% para 24,1% e a dos securitizados de 27,6% para 31,3%.
Já no âmbito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), o aumento do saldo dos empréstimos em 2024 foi de 10,9%, após uma elevação de 8,1% em 2023. Na decomposição por tipo de tomador, a contribuição maior recaiu sobre as linhas de crédito para pessoas físicas (PF), que saíram de uma elevação de 10,5% em 2023 para uma de 12,1% em 2024. Contudo, o saldo dos empréstimos para as pessoas jurídicas (PJ) apresentou um avanço no ritmo de expansão, passando de um crescimento de 4,7% para 9,1% no período.
Considerando-se as fontes de recursos, o destaque ficou com as linhas com recursos livres (RL), cujo aumento do saldo acelerou de 5,6% para 10,6%, com o crescimento das modalidades para PF saindo de 8,4% para 12,3% e para PJ de 2,1% para 8,4%. Com alguma acomodação, o crescimento do estoque de operações com recursos direcionados, passou no período de 11,9% para 11,4% a.a., com a alta nas linhas para PJ subindo de 9,6% para 10,4% e as para PF reduzindo-se de 13,1% para 11,8%.
Em termos de tendência, o impacto da política monetária restritiva é ainda parcial e limitando-se a taxa de juros dos empréstimos. No segmento com RL, mais sensível a taxa de juros, e mostrando aceleração no 2º semestre, as concessões acumuladas em 2024 cresceram 16,1% em relação a 2023, com aumentos de 18,0% para PJ e 14,6% para PF. A taxa média de juros das novas operações elevou-se em 1,0 p.p. desde ago/24, ante um aumento de 1,75 p.p. da taxa referencial Selic. No ano, o indicador para as modalidades com RL subiu 0,2 p.p., com alta de 1,0 p.p. para PJ e com queda de -0,9 p.p. para PF. Como consequência do aumento de 3,0 p.p. no ano na taxa média de captação para as operações com RL, o spread médio reduziu-se em -2,8 p.p. no ano.
A despeito do aperto das condições financeiras, a qualidade da carteira de crédito permanece apresentando uma evolução confortável, em consonância com a boa performance dos indicadores de atividade, do mercado de trabalho e da renda. A taxa de inadimplência média nas linhas com RL caiu -0,4 p.p. no ano para 4,1%, com redução de -0,6 p.p. para 2,5% para PJ e de -0,3 p.p. para 5,3% para PF.
Em sua última reunião, o Comitê de Estabilidade Financeira do BC afirmou que a materialização do risco de crédito continua ocorrendo nas operações com micro, pequenas e médias empresas (MPMe) e no crédito rural para PF. Por outro lado, mantém-se a tendência de redução nas linhas de maior risco concedidas a PF.
Ainda aguardando a sinalização de impactos mais consistentes do aperto da política monetária, a Diretoria de Economia, Regulação e Produtos da ABBC projeta uma desaceleração no mercado de crédito. Com crescimento nominal do saldo no SFN saindo de 10,9% em 2024 para 9,1% em 2025, número abaixo das estimativas de aumento de 9,6% previsto pelo BC em seu último relatório de inflação.


