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Europeus mostram fadiga da politica de austeridade

A reação europeia contra a austeridade econômica está ganhando impulso, numa contestação à premiê alemã, Angela Merkel, que defende cortes de gastos como solução para a crise da dívida. Não está claro, porém, qual seria a alternativa.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, perdeu o primeiro turno na disputa em que busca sua reeleição. E uma revolta contra mais cortes de gastos na Holanda, país que costuma ser cauteloso com suas contas, derrubou a coalizão de governo do premiê Mark Rutte.
Juntamente com generalizadas manifestações antiausteridade na atual campanha eleitoral na Grécia, a mudança no ânimo popular no coração da Europa gerou renovadas dúvidas sobre a estratégia liderada pela Alemanha visando superar a crise que já dura dois anos.
"Traçamos o caminho da disciplina, isso é muito bom e temos de continuar nesse rumo, mas precisamos também desesperadamente organizar a segunda trilha, de crescimento, de solidariedade, de investimentos", disse o ex-primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt, hoje membro do Parlamento Europeu, à Bloomberg Television.
O euro caiu, depois que investidores migraram de títulos da Holanda, Bélgica, Espanha e Itália para títulos da Alemanha, em meio ao temor de que esteja se esgarçando um consenso sobre como reagir à crise. O rendimento dos títulos de cinco anos da Alemanha caiu para um mínimo na era do euro, de 0,62%, ao passo que o prêmio exigido por investidores para ter em carteira títulos holandeses foi o mais alto desde 2009.
As tensões políticas coincidiram com a divulgação de um declínio maior que o esperado no setor de serviços e na produção industrial em abril na zona do euro, proporcionando aos adversários da austeridade evidências de que os fervorosos cortes orçamentários poderão lançar a região, com seus 17 países, em nova recessão.
Os europeus setentrionais, que defendem políticas fiscais apertadas, citaram dado da Eurostat (a agência de estatística da UE) que mostra que a dívida agregada dos países que compartilham a moeda única atingiu € 8,2 trilhões (US$ 11 trilhões) em 2011, a maior nos 13 anos de vida da moeda.
Merkel, que dominou a reação europeia à crise, disse que a redução da dívida é o melhor caminho para a saúde econômica. "Uma gestão orçamentária firme é um fator para a geração de crescimento, mas naturalmente não é o único", disse Merkel ontem, na Feira de Hanover. "Ainda estamos no processo de superar esta crise."
Embora isso tenha empurrado para baixo os custos de tomada de empréstimos para os alemães, outros países europeus enfrentam dificuldades para convencer os investidores de que a austeridade é a melhor via para estabilidade política e a saúde financeira. O spread dos títulos de dez anos da Espanha aumentou 3 pontos-base, para 5,94%, ontem, e o rendimento dos títulos holandeses de 10 anos subiu 6 pontos-base, para 2,37%.
Essa fadiga de austeridade afetou diretamente Sarkozy. Ele procurou equilibrar a linha antidéficit alemã com políticas em favor do crescimento, com pouco êxito nas duas frentes. Em janeiro, a França perdeu sua nota de crédito AAA da Standard & Poor‘s e o desemprego chegou a 9,8% no quarto trimestre.
Embora os títulos franceses tenham se recuperado desde então, o prêmio de risco dos títulos de dívida de dez anos chegou a atingir, no ano passado, para o maior nível desde quando François Mitterrand era presidente, em 1990. O spread em relação aos títulos alemães está agora em 141 pontos-base, contra 190 em novembro.
Ontem, os eleitores puniram Sarkozy, que se tornou o primeiro presidente nos 54 anos de história da Quinta República francesa a ficar em segundo lugar no primeiro turno. Ele agora tem um árduo desafio no segundo turno, em 6 de maio, contra seu adversário socialista François Hollande.
A tentação, para Sarkozy, é obter o apoio da Frente Nacional, anti-imigração, liderada por Marine Le Pen, que conquistou 18% dos votos no primeiro turno, em seu melhor resultado eleitoral. Se reeleito, essa guinada distanciaria Sarkozy da corrente predominante europeia.
"O que a Frente Nacional significaria: fim do euro, fim da Europa", disse ontem o ministro das Relações Exteriores de Luxemburgo, o socialista Jean Asselborn. "Se eu fosse presidente da República, estaria me perguntando por que um em cada cinco franceses votaram na Frente Nacional."
A possibilidade de vitória de Hollande também preocupa os mercados. O socialista vem criticando a política de austeridade adotada na Europa e promete reverter parte dos cortes de gastos anunciados por Sarkozy. Ele também prometeu deixar o pacto fiscal da UE, pelo qual os países se comprometeram a equilibrar os seus orçamentos.
Um partido que rejeita a imigração e o socorro a países endividados cresce em influência na Holanda, um dos quatro países ainda com nota de crédito AAA na zona euro e tradicional entusiasta de contenção orçamentária e salarial.
No fim de semana, Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade, recusou-se a endossar cortes na seguridade social, retirando seu apoio ao governo minoritário do premiê Mark Rutte. Rutte, que em 21 de abril dissera que [a realização de] novas eleições seria "um cenário óbvio", renunciou ontem.
Os swaps de risco de crédito relativos a títulos holandeses deram um salto de 11,5 pontos, para 130, ontem em Londres.
"As chances de um consenso não parecem muito grandes", disse Riccardo Barbieri, economista-chefe para Europa na Mizuho International em Londres, em nota a investidores". A Alemanha parece cada vez mais isolada na zona do euro, devido a seu baixo déficit orçamentário e seus rigorosos mecanismos para impor disciplina".
A Holanda teve déficit de 4,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011, o terceiro ano em que superou o limite de 3% assumido com a adoção do euro. Rutte precisa cortar outros € 9,5 bilhões para cumprir a meta até 2013. A economia deverá encolher 0,9% este ano, segundo previsão da UE de fevereiro.
A rebelião contra a austeridade entre aliados dos alemães intensifica o foco sobre as eleições do mês que vem na Grécia, epicentro da crise da dívida. A eleição grega, também em 6 de maio, paira como um referendo sobre os cortes de gastos exigidos da Grécia em troca de empréstimos de socorro que agora totalizam € 240 bilhões.
Antonis Samaras, líder do Partido da Nova Democracia, prometeu ontem baixar os impostos e colocar fim aos cortes generalizados nas pensões e nos salários, que desencadearam a crise econômica mais grave desde o fim da Segunda Guerra. Economias no orçamento virão predominantemente do combate ao desperdício, disse ele.
O partido de Samaras ruma para conquistar entre 104 e 112 assentos no Parlamento, deixando-o a pequena distância de obter a maioria necessária para governar, segundo pesquisa da Public Issue..
"O que estamos vendo em toda a UE é um movimento de oposição aos detentores do poder", disse Richard Whitman, pesquisador do centro de estudos Chatham House, de Londres. "Onde a opinião pública têm uma oportunidade para expressar sua insatisfação com os atuais governantes, eles estão levando um pé no traseiro".
Fonte: Valor Econômico/ Bloomberg/ James G. Neuger - 24/04/2012


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