Você está em: Assessoria Econômica > Notícias

Assessoria Econômica

Notícias

Zona do euro e China voltam a intranquilizar os mercados

Os mercados voltaram a se mover em ritmo de fortes baixas, depois de uma onda de relativa estabilidade propiciada principalmente pela gigantesca intervenção do Banco Central Europeu fornecendo empréstimos praticamente ilimitados de três anos para os bancos da zona do euro, em dezembro, e pelos sinais positivos de recuperação da economia americana. Trata-se de mais uma correção de rumos em um longo ciclo de instabilidade. Na superfície, não houve grandes fatos para explicar fortes oscilações. Na prática, porém, desde que o presidente do Federal Reserve americano, Ben Bernanke, disse que a crise não iria terminar tão cedo, isto é, que a redução do emprego precisaria de uma recuperação bem mais robusta que a atual, os sinais vindos dos EUA deixaram de ser tão positivos. A calmaria artificial da zona do euro ameaça agora ser rompida pela Espanha, cujo drástico pacote de austeridade é encorajado pelos mercados como a saída necessária e, ao mesmo tempo, visto com ceticismo. As dúvidas contagiaram também a Itália e os juros dos títulos de dez anos subiram quase ao nível de antes da intervenção do BCE.
Uma das principais razões para a nova onda de deterioração das expectativas é que, tudo o mais constante, os motores de ativação da economia global estão desacelerando. Isto é particularmente verdadeiro no caso da China. Pelos dados de março, as exportações chinesas continuam perdendo o fôlego, depois de sentirem o baque da recessão na União Europeia, seu principal mercado. No trimestre, cresceram 7,6%, enquanto as importações avançaram apenas 6,9%. Pelo modelo exportador chinês, as compras externas necessariamente recuariam. O comportamento das importações é um indicador importante da guinada econômica prometida pelos líderes do PC chinês em direção ao mercado interno. A prioridade ao consumo em detrimento do investimento levará ao encolhimento do superávit comercial, que já está ocorrendo. No trimestre, o saldo comercial chinês foi inferior ao brasileiro e atingiu apenas US$ 670 milhões.
A rota do estímulo ao consumo interno, porém, tem obstáculos. A inflação voltou a subir, colocando limites para novos programas de incentivo ao crédito, como durante a crise de 2008. O governo chinês prefere, pelos discursos oficiais, um crescimento menor do que manter taxas acima de 10% a qualquer custo. Pelas previsões dos analistas, o PIB trimestral, que será conhecido na sexta, recuou para 8,4%.
Os demais países emergentes, que puxam o crescimento global, encontram dificuldades para retomar velocidade. O Brasil deve avançar 3,5% neste ano, e a Índia tende a acompanhar a China e exibir um desempenho menos formidável.
Restam, portanto, os EUA. Bernanke deixou os mercados descontentes ao anunciar o óbvio, que uma nova rodada de afrouxamento monetário não está em seu programa de curto prazo. O mercado imobiliário continua um longo processo de ajuste de preços para baixo, que pesa sobre o resto da economia. As empresas tiveram queda nos lucros no quarto trimestre. Os investimentos avançam em ritmo modesto. A recuperação é lenta e enfrenta ameaça com data marcada - um choque fiscal em 2012, com o fim dos descontos sobre a folha de pagamentos das empresas e dos americanos mais ricos.
Quando boas notícias escasseiam, as más tendem a ganhar maior peso valorativo. A Espanha emitiu um duro pacote de ajuste para derrubar seu déficit de 8,5% do PIB para 5,3% em 2012 e 3% em 2013. Com isso, a recessão deve ser mais profunda que os 1,7% previstos pelo governo e as contas têm tudo para não fechar. Logo, os mercados especulam com novo pacote de ajuda à Espanha em uma espiral de instabilidade que pode não poupar a Itália. Vistos como náufragos abraçados pelo mercado, os títulos de ambos subiram na terça-feira para 6% (Espanha) e 5,68% (Itália).
O detalhe trágico, conhecido, é que não há dinheiro para salvar a Espanha sozinha, com sua dívida de US$ 1 trilhão, e muito menos a Itália, que deve o dobro disso. A liquidez proporcionada pelo BCE ancorou os bancos, cuja disposição de ganhar dinheiro com títulos soberanos e seus altos retornos é circunscrita pelos altos riscos da operação. Itália e Espanha terão de se financiar a um custo mais alto em meio a uma recessão, uma receita que inspira os piores temores. Por tudo isso, volta-se a uma situação de elevação dos riscos nos mercados.


Fonte: Valor Econômico - 12/04/2012

 


Endereço:
Av. Paulista, 1.842 - 15º andar - conj. 156
Edifício Cetenco Plaza - Torre Norte Cerqueira César - CEP: 01310-923
São Paulo - SP
Telefone: (5511) 3288-1688
Fax: (5511) 3288-3390