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Europa teme que Portugal repita Grécia e sacrifique crescimento

As autoridades europeias começam a temer que as semelhanças entre as economias da Grécia e de Portugal possam comprometer o programa de resgate de € 78 bilhões (US$ 103 bilhões) dado ao país ibérico.
Isso levantaria novas dúvidas sobre a estratégia para resolver a crise de dívida soberana dos países da zona do euro, estratégia essa centrada na redução rápida de déficits orçamentários.
Se o programa de Portugal falhar, isso reforçará o argumento de que o remédio prescrito para a Europa reprime o crescimento, tirando a capacidade do governo de fazer frente às suas pesadas dívidas.
"Os portugueses estão mais ou menos usando os truques da cartilha que eles receberam", disse um funcionário da zona do euro. "Mas talvez haja um problema com a cartilha."
O principal problema que Portugal e Grécia enfrentam é o seu pequeno setor de exportação. Isso torna suas economias particularmente sensíveis a cortes profundos nos déficits do governo, dizem os economistas.
Os investidores estão céticos: a taxa de juros do principal título de dez anos da dívida de Portugal aumentou de menos de 10% em maio, quando o resgate ao país foi decidido, para cerca de 14%, um nível que indica preocupação quanto a uma possível moratória.
Ao contrário da Grécia, Portugal vem sendo elogiado por seguir rigorosamente as exigências do programa. As autoridades
portuguesas dizem que a sua ambiciosa agenda de "reformas estruturais" - como o relaxamento das regras para contratar e demitir empregados - tornará a economia mais competitiva.
Mas, por enquanto, o governo de Portugal insiste que cortes rápidos no orçamento são necessários.
"Esses programas têm que começar pelo mais difícil", disse Carlos Moedas, secretário de Estado do primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho. "Queremos fazer os ajustes o mais rápido possível para voltar crescer."
O programa de resgate, negociado em maio de 2011 com os governos da zona do euro e com o Fundo Monetário Internacional (FMI), presume que Portugal será capaz de levantar € 10 bilhões em dívida de longo prazo até setembro de 2013. Alguns economistas duvidam que isso seja possível. "É claro que isso está totalmente fora de cogitação", disse Daniel Gros, do Centro de Estudos de Política Europeia, situado em Bruxelas.
As autoridades portuguesas observam que os líderes da zona do euro deixaram em aberto a possibilidade de ampliar a ajuda a Portugal, caso os mercados financeiros não se acalmem até o segundo semestre de 2013 - desde que não haja atrasos no programa. "Nós não vamos precisar de outro resgate por causa de alguma deficiência na maneira como este está sendo executado", disse Moedas.
Resolver a crise de Portugal será mais difícil por causa de uma semelhança com a Grécia: o pequeno papel que as exportações desempenham em ambas as economias. As exportações correspondem somente a 25% do Produto Interno Bruto (PIB) na Grécia e a 35% em Portugal.
Apesar do duro programa de austeridade, a economia irlandesa provavelmente cresceu em 2011, e no mês passado o país conseguiu um swap de títulos de dívida com credores a juros razoáveis.
O baixo volume relativo de exportações de Grécia e Portugal, por outro lado, resultam em economias duramente golpeadas por medidas de austeridade, porque são incapazes de produzir um aumento nas exportações grande o suficiente para compensar os efeitos daninhos das medidas.
O programa de austeridade da Grécia deu uma mordida muito mais profunda na economia doméstica do que se esperava.
Quando foi anunciado pela primeira vez, a União Europeia e o FMI projetaram que a demanda doméstica cairia 5,6% em 2012 e 5,9% em 2011. Mas ela caiu 7% em 2010 e estimados 9% em 2011, agravando a recessão na Grécia.
A demanda doméstica em Portugal mostrou-se um pouco melhor do que o esperado nos primeiros seis meses do programa, mas a Comissão Europeia, que é o corpo executivo da UE, e o FMI já reduziram as projeções para a demanda doméstica neste ano e no próximo.
Os esforços da Grécia e de Portugal para usar as exportações como uma saída para a crise estão também sendo prejudicados pela incapacidade de desvalorizar suas moedas mais rápido que os concorrentes.
Economistas da Goldman Sachs, trabalhando com base nas pesquisas do FMI, disseram em uma nota de agosto que os programas de austeridade da Grécia e de Portugal provavelmente
ultrapassam os "limites de velocidade", o que torna o aperto de cintos um processo autodestrutivo.
"Ajustes muito grandes e rápidos neste tipo de regime de câmbio fixo, embora às vezes sejam necessários, são arriscados, uma vez que os danos no crescimento podem afetar seu sucesso", escreveram os economistas.
A Irlanda seguiu um caminho diferente em relação a Grécia e Portugal, o que pode ser visto no saldo da conta corrente, um indicador que mostra se uma economia vende mais do que consome. A Irlanda registrou em 2010 seu primeiro superávit em conta corrente em uma década, e a UE espera que o país registre mais superávit em 2011, este ano e o próximo.
A expectativa é de que Grécia e Portugal registrem em 2011 déficits em conta corrente de 9,9% e 7,6% do PIB, respectivamente, um volume bem distante dos grandes superávits que muitos economistas dizem que serão necessários para que esses países possam pagar suas dívidas.
Certamente, a Grécia tem mais dívida governamental que Portugal - 159% do PIB no fim do terceiro trimestre, contra 110% de Portugal. Mas Portugal acumula mais dívidas no setor privado.
Fonte: Valor Econômico/ The Wall Street Journal/ Matthew Dalton - 07/02/2012
 


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